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Precisava achar. A diferença, alguma coisa que não fosse igual, que não fosse sempre (o mesmo) da mesma maneira. A arte tinha que ser essa diferença. E procurei: o que é que no acto de criar é sempre igual, sempre repetido: o princípio e o fim. Sempre se começam e acabam coisas, Por isso concluí que esse seria o meu caminho: primeiro, acabar a obra, e só depois a começar. De um rasgo, acabar, e de um rasgo também, começar. E foi assim. Estávamos no final dos anos 90, a virar o século de mil anos, e por mil vezes acabei e comecei desenhos. Tornei-me um mensageiro desse caminho, ou melhor, um portador de mensagens. (Porque) Quem acaba algo, há algo que existia antes para que pudesse ser acabado. E se começa, pois então que comece o sentido, continue a mensagem.

2

E a luz? Não entendia nada de luz e sombra. Uma vez tinha lido um livro. Era muito pouco. E porque não trabalhar a arte dentro da terra, juntamente com todas as leis da luz e da sombra? Quando a trouxesse à luz exterior, impor-se-ia. Seria a luz e a sombra profunda de cada obra. Achei isso. E foi assim. Que a luz e a sombra de dentro se fundiram com a luz e a sombra de fora. E os sentidos.

3

Percorrer os caminhos até à origem. Cansa. Se foram todos os caminhos. É preciso inventar novos caminhos, sonhava eu, e sem dar conta, era já o sonho só, e eu, que andávamos, e os trilhos dissiparam-se pelos desertos e pelo mar e para ir mais fundo, só no silêncio de muitos sonos, a consciência se liberta, e o corpo desencontra os trilhos. E é quando começa a chover minimamente de hierofania em hierofania a liberdade de sentir que não estou sozinho. E a arte é isso: origem e companhia. Amor e a água. E o fogo e a terra. E o vento.

4

Muitos anos mais tarde. Hoje. Há alguns anos, descobri que a fotografia não servia só para mostrar. Servia também para descobrir e fazer descobertas. Acabar descobertas e depois de as acabar, começá-las. De um rasgo. Obturador igual ao lápis de cera, nos trilhos. Com a luz e a sombra das profundezas, retirada do fundo, do lodo e da morte para a luz de começar. No(s) outro(s). Ao princípio, como quem foca a Lua, como quem foca a sombra, como quer foca a ave e o rosto, como quem foca a linha do horizonte. Mas depois, Mais sábio, como quem foca com a própria alma, o prolongamento das veredas, o ser-ser, fora dos acontecimentos, longe de todos os acontecimentos sensacionais. Como quem foca com o coração, antes que a mente perceba para onde vão as coisas depois de serem vistas. Desentender o mundo. É isso, desentender as coisas ao ponto de as converter em poema. Depois de o acabar.

5

Começa aqui a minha explicação. A minha sede. Acaba e começa. A minha máquina fotográfica inaudita. O meu lápis de cera do passar do século de mil anos. A minha esferográfica inquieta, gravada nas mensagens, de que sou portador, e mensageiro ao mesmo tempo. Pelos trilhos fora. Da origem.